Carreira: maturidade, longevidade e biografia

As pesquisas e instituições nos trazem notícias de que o envelhecimento da população no Brasil e no mundo é uma realidade. A longevidade nos traz desafios e nos oferece questões. O que farei com os anos pós-aposentadoria? Conseguirei me aposentar? O que farei com os anos adicionais de vida? Como me sustentarei? Qual será o impacto para os mais jovens?

Os dados demográficos indicam que estamos vivendo uma transição demográfica. No Brasil, entre 1950 e 1975, a idade mediana da população estava próxima de 20 anos, significando que 50% da população tinham menos de 20 anos e somente 5% das pessoas estavam acima de 60 anos no país. Podia-se dizer que a estrutura etária brasileira era extremamente jovem.

Segundo as projeções da ONU (2019), ao final do século XXI, a idade mediana no Brasil estará acima de 50 anos, significando que metade da população terá mais de 50 anos e a proporção de idosos de 60 anos e acima estará em 40%. E o país terá uma estrutura etária envelhecida.

Segundo relatório das Nações Unidas (ONU), a expectativa de vida ao nascer para a população mundial atingiu 72,6 anos em 2019, um avanço de mais de oito anos desde 1990. Outras melhorias na sobrevivência são projetadas para resultar em um tempo médio de vida global de cerca de 77,1 anos em 2050. Em 2018, pela primeira vez na história, as pessoas com 65 anos ou mais, em todo o mundo, superavam as crianças com menos de cinco anos. As projeções indicam que, em 2050, haverá mais do dobro de pessoas com mais de 65 anos do que crianças com menos de cinco anos. Até 2050, o número de pessoas com 65 anos ou mais em todo o mundo também ultrapassará o número de adolescentes e jovens de 15 a 24 anos.

Estima-se que no Brasil, esta transição deve ocorrer em 2030 e que, entre 2015 e 2030, o grupo de idosos acima de 85 anos aumentará em um ritmo maior do que a população entre zero e 60 anos. Em 2020, já percebemos essa transformação e vários movimentos têm surgido, por exemplo, o Maturi Jobs, como uma forma de inclusão da população 50+ no mercado de trabalho.

E o que esses dados significam? Que a sociedade, as organizações e os indivíduos precisam se preparar para essa realidade, esse novo cenário.

Dois professores da renomada escola de negócios London Business School (LBS), na Inglaterra, Lynda Gratton e Andrew Scott, vêm estudando o tema da longevidade e lançaram dois livros, sem tradução para o português. Em 2016, publicaram o “The 100-Year Life – Living and Working in an Age of Longevity” (“A Vida Centenária – Viver e Trabalhar na Era da Longevidade”, em tradução livre) e em maio de 2020, “The New Long Life: A Framework for Flourishing in a Changing World” (A Nova Vida Longa: Uma Estrutura para Florescer em um Mundo em Mudança, em tradução livre).

 No primeiro livro, os autores afirmam que estamos caminhando para o rompimento com a imagem de uma vida com três estágios bem definidos: educação, trabalho e aposentadoria. O estudo é uma preparação para o “mercado de trabalho” e trabalhamos visando a aposentadoria. Esse modelo está em extinção. Você já percebeu?

A educação precisa estender-se e permear toda a vida, transformando-se de educação receptiva em autoeducação, no desenvolvimento de habilidades e agregação de conhecimentos. De lifelong learning[1] a lifewide learning[2], com atenção à frase do célebre futurista Alvin Toffler, afirmando que “o analfabeto do século XXI não será aquele que não sabe ler e escrever, mas aquele que não souber aprender, d esaprend er e reaprender”.

Existem várias formas de educação possíveis (inclusive gratuitas, e com a pandemia as ofertas se multiplicaram). Também considero as viagens (quando voltarem a ser possíveis) e os relacionamentos como fontes de aprendizado e de autoconhecimento. E as leituras, também. Recomendo incluir outras, além e diferentes da sua área de interesse, as quais podem servir para ampliar seus horizontes e a criatividade.

Para lidar com a “vida centenária”, Lynda e Andrew (os autores) criaram três blocos de ativos intangíveis que precisamos cultivar, desde cedo, em nossa vida, a saber: Produtividade, Vitalidade e Transformação.

O ativo Produtividade engloba o conhecimento (técnico e habilidades), os pares e a reputação. No ativo Vitalidade, encontram-se a saúde, o viver balanceado e os relacionamentos regenerativos (que nos energizam). Dentro do ativo Transformação, estão o autoconhecimento e as redes.

Para reforçar o cultivo desses ativos intangíveis, um dos pontos de partida é o desenvolvimento de hábitos. Como aprendemos? Como podemos melhorar nossos hábitos relacionados ao aprendizado? Como cuidamos de nossa saúde, de forma global? Que hábitos podem nos levar a viver de forma balanceada?

O conceito de trabalho também se transforma, com a possibilidade de exercermos diferentes atividades ao longo da vida. Já podemos observar jovens que transitam entre empregos, empreendedorismo e momentos sabáticos. Está cada vez mais forte a transição do que chamamos de trabalho para uma conexão com o propósito de vida.

Pesquise em sua vida, lembrando o que aconteceu aos 18 anos e meio, aos 37 anos e aos 55 anos e 10 meses. Segundo os estudos de Biografia Humana, nestas idades acontece o nodo lunar (quando o sol e a lua estão na mesma posição de nosso nascimento), e podem ocorrer fatos que nos conectam à nossa missão, vocação e profissão. Aos 18 anos e meio, podemos ter um vislumbre do nosso propósito, da nossa missão na vida. Aos 37 anos, ocorre um questionamento do exercício de nossa vocação (estamos na profissão correta?). E, no portal dos 55 anos e 10 meses, surge a visão de uma nova missão, para a fase seguinte a partir dos 63 anos.

Como a aposentadoria, sonho de nossos pais, não está garantida e a expectativa de uma pensão, seja do governo ou de uma empresa privada, está cada vez mais distante, precisaremos financiar nossos anos a mais de vida.

No livro mais recente, The New Long Life: A Framework for Flourishing in a Changing World”, os autores afirmam que será a combinação entre tecnologia e longevidade que trará muitas questões sobre a carreira. O livro explora uma ampla estrutura sobre as dimensões humanas de uma nova vida longa. Essa estrutura é formada por cinco áreas principais, a saber: trabalhos e carreiras; envelhecimento; saúde; relacionamentos; e pioneiros.

Para lidar com estas questões, precisamos voltar a pensar e repensar nossos hábitos. Quais são as mudanças que devemos fazer em nossos hábitos de consumo, de poupança e de investimento? De dinheiro e de tempo! Dentre tantas incertezas, uma certeza se estabelece: se quisermos viver com qualidade a nossa longevidade, precisamos começar a investir já!

Serão necessários novos pressupostos e para desenvolvê-los, os autores sugerem três ações fundamentais (“pedras de toque”, em inglês, touchstones):

1. Narrar (Contar): navegar nossa trajetória de vida. Criar uma narrativa, uma história, que confira significado à nossa vida e ajude na navegação pelas escolhas que fazemos, considerando que a longevidade aumenta a duração da vida e as rupturas tecnológicas criam transições mais frequentes.  Na minha experiência, olhar para a biografia (história de vida) com uma visão panorâmica (passado, presente e futuro), apropriando-se dela, “tomando a vida nas próprias mãos”, pode contribuir para o desenho dessa narrativa. A partir de uma questão no presente, podemos encontrar no passado sementes, insights, para novas possibilidades de carreiras futuras. Sugiro procurá-las no período de 14 a 21 anos, quando a tônica é “o mundo é verd adeiro&r dquo; e o jovem entra em contato com seus ideais e tem um vislumbre do seu propósito (por volta dos 18 anos e meio, como já dissemos).

2. Explorar: aprendizado e transformação. Os seres humanos são propensos à exploração. Neurocientistas encontraram uma parte do cérebro que “acende” quando estamos envolvidos com novas informações ou tarefas desafiadoras. Descobriram ainda que essa estimulação cerebral é altamente motivante. Para lidar com as transições que serão, cada vez mais, parte de nossa vida precisaremos de curiosidade e coragem para aprender novas habilidades e experimentar novos comportamentos.

3. Relacionar-se: conexão profunda. O estudo de Harvard já citado (“What makes a good life?”) que acompanhou a vida de 250 homens durante 70 anos, mostrou que o fator mais importante para a longevidade e envelhecimento saudável era o nível de satisfação com os relacionamentos. Os autores afirmam que nossos relacionamentos criam um senso de pertencimento e de apreciação. Quando somos amados e amamos outros, nos sentimos apreciados, felizes, cuidados e compreendidos.

E você? Como tem se preparado para a longevidade? Qual será sua próxima carreira? E sua saúde, quanto tem investido de tempo nela?

por Angela Vega é especialista em gestão da mudança, comunicação não violenta e aconselhadora biográfica. É coach certificada pela Time to Think (Inglaterra/2017) e pós graduanda pela PUC-RS em Filosofia e Autoconhecimento.

[1] Aprendizagem ao longo da vida.
[2] Aprendizagem em vários aspectos da vida.

Nina Machado

Jornalista, especialista em marketing digital e gestão de pessoas trocou o mundo corporativo em busca de uma vida mais conectada com seu propósito. Em 2019 criou o projeto Ficar Bem aos 40 para abordar assuntos do universo feminino 35+. Além disso, é co-editora do Corra Mais e repórter do Inova Mais, ambas editorias do portal RIC Mais.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Voltar ao topo